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Dos Engenhos ao copo: Cachaça paraense já é sucesso no Brasil

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O dia 13 de setembro é considerado o dia nacional da cachaça, umas das bebidas mais democráticas do país que não escapou da criatividade dos produtores da região, que logo acrescentaram à bebida sabores que só o Pará tem como o nosso jambú, açaí e bacuri, que vem conquistando o Brasil. Mas você já se perguntou a origem dessa bebida tão apreciada pelos brasileiros?

A origem da cachaça brasileira está enraizada na história da descoberta do país, pois os portugueses foram os responsáveis por introduzir as primeiras mudas de cana-de-açúcar no Brasil, ao final do século XV. Para alguns especialistas, as primeiras mudas teriam sido trazidas por Martim Afonso de Sousa, por volta de 1532, para produção do açúcar no Engenho São Jorge dos Erasmos.

Já o sociólogo Fernando de Azevedo afirma que o ano de 1502 é o marco da introdução da cana-de-açúcar no país. As mudas teriam chagado embarcadas na bagagem de Gonçalo Coelho, um navegador e cosmógrafo português que em 1501 comandou de seis navios rumo às índias, por ondem de D. Manuel, e no caminho fez escalas na América com o objetivo de mapear a costa e observar os costumes dos povos indígenas.

A chamada cana-crioula foi, por aproximadamente 300 anos, a única a servir de fonte de açúcar e alimento. Por volta de 1790, a cana-caiana – nome derivado de sua origem, Cayenne (Caiena), capital da Guina Francesa, teria entrado no país pelo estado do Pará e posteriormente passou a ser cultivada no Rio de Janeiro.

A Descoberta da Cachaça

A forma como a bebida foi descoberta é no mínimo curiosa. Nos engenhos de açúcar, durante a fervura da garapa, surgia uma espuma de impurezas que era retirada dos tachos e servida como alimento nos cochos para os animais. Dentro dos cochos a espuma fermentava naturalmente transformando-se num liquido que parecia revigorar os animais. Os escravos decidiram experimentar aquele caldo e gostaram tanto que passaram a consumi-lo com frequência. A notícia sobre o consumo da bebida logo chegou aos ouvidos dos senhores de engenho, os quais, já conhecendo as técnicas de destilação, passaram a aplica-las ao mosto fermentado de cana-de-açúcar, dando origem a Cachaça.

A Cachaça na Amazônia

A cachaça chegou a região Amazônica durante o processo de Colonização europeia, no final do século XVI e começo do XVII. Holandeses, ingleses e franceses, que possuíam extensas plantações de cana de açúcar estimularam a comercialização do açúcar na região. A lavoura de cana de açúcar proliferou no estado do Pará, pelas margens dos rios Guamá, Capim, Acará, Moju e Igarapé-Miri.

As terras situadas às margens dos rios foram ocupadas por europeus, que logo se miscigenaram com a população indígena dando origem aos caboclos ribeirinhos, o que também favoreceu o enraizamento da cultura da cana-de-açúcar e fez com que essa adquirisse importância econômica.

Segundo a pesquisadora Leila Mourão em seu livro “Memórias da Indústria Paraense”, as primeiras iniciativas manufatureiras no Pará foram os engenhos de açúcar e aguardente (Cachaça), que em pequena escala fabricavam mel de cana, e rapadura.

Importância Econômica

O pesquisador Arthur César Ferreira Reis, aponta que no período compreendido entre 1662 a 1667, sete engenhos movimentavam a economia de Belém. Há registros que os primeiros engenhos no Pará foram instalados pelos holandeses, possivelmente antes de 1600 e o primeiro engenho português começou a funcionar entre 1616 e 1618. Ainda hoje é possível rememorar fase áurea da cana-de-açúcar em nosso estado, ao se observar, por exemplo, o engenho do Murucutu, situado próximo a cidade de Belém, à margem direita do rio Guamá.

Também se destacam na história da cachaça paraense o engenho Jaguarary, construído pelos jesuítas e o engenho Cafezal, localizado próximo a Baía de Carnapijó, hoje município de Barcarena, onde ainda permanecem de pé as ruínas da fazenda e daquele engenho, possivelmente um dos mais antigos do estado.

Ernesto Cruz cita em seu livro “Historia de Belém” que, em 1751 João Antônio da Cruz Diniz Pinheiro, ouvidor da Província do Grão Pará, informou a metrópole a existência de 24 engenhos de açúcar e 77 de cachaça, a maioria utilizando tecnologia europeia.

Produção Paraense

A produção de cachaças no Pará tem acompanhado o crescimento nacional do segmento de bebidas alcoólicas, mistas e licores. Ainda que o número de produtores seja pequeno, esses vêm buscando excelência em qualidade, com destaque para tendências em inovações nacionais e internacionais, dado o uso dos vastos recursos naturais amazônicos disponíveis em nossa região. Sabores genuinamente paraenses como o jambú, bacuri, cupuaçú e açaí têm conquistado cada vez mais espaço entre os amantes da bebida no país.

Em se tratando de produção legalizada e comercial, entre a última década do século XX e primeira do século XXI não havia registro de engenhos em atividade no estado do Pará. Entretanto, no ano de 2016, a cidade de Abaetetuba, conhecida como “Terra da Cachaça” foi escolhida pelo Engenheiro Químico Omilton Quaresma e seus sócios, para receber um Engenho moderno e tecnológico, que passou a produzir cachaças tradicionais, envelhecidas e bebidas alcoólicas mistas. Outro engenho viria ser registrado quase ao mesmo período por Marcino Duarte, na cidade de Ulianópolis.

Apesar do longo período sem engenhos no Pará, outros produtores vinham desenvolvendo bebidas alcoólicas mistas e licores, com cachaça adquirida de outros estados brasileiros, associada a matérias primas vegetais regionais. A de maior destaque foi a “cachaça com jambu” que teria sido criada por Leo Porto em Belém do Pará.

“Como todos os destilados mundo afora, a cachaça paraense apresenta um ‘teroir’ único, dado as características climáticas, solo, água e cultura de sua região. Entretanto os aspectos químicos e sensoriais são influenciados diretamente pela forma de fazer de cada produtor e por sua microrregião, onde por exemplo explora leveduras próprias de seu canavial no processo de fermentação do caldo de cana, aplica determinada técnica especifica em seu processo de destilação, ou ainda elabora um blend excepcional a ser engarrafado”, explica Omilton Quaresma, produtor paraense.
Omilton Quaresma implantou a “Destilaria de Cachaça da Amazônia” no coração da Amazônia Brasileira, na Cidade de Abaetetuba no Estado do Pará. Das várias bebidas que compõe a produção, cachaças como a “Indiazinha Ouro”, figuraram o III Ranking da Cúpula da Cachaça (2018-2019) como 19ª melhor cachaça envelhecida/armazenada em madeira do Brasil. Tendo também recebido medalha de prata no Concurso Mundial de Bruxelas em 2018. Tal contexto consolida a vocação paraense para produção de destilados de alta qualidade.

Mostra das Cachaças Paraenses

E para quem ficou curioso e quer conhecer mais de perto sobre a evolução da cana-de-açúcar e da cachaça no Estado, bem como degustar das versões tradicionais e sensaborizadas da bebida, uma ótima oportunidade é visitar a primeira mostra das cachaças paraenses, que ocorre na Estação das Docas, a partir desta sexta-feira (13) até o próximo domingo (15). A mostra fica aberta no Armazém 2, das 18h às 22h, com entrada franca.

Na ocasião, produtores dos municípios de Abaetetuba, Altamira, Belém e Ulianópolis apresentarão a bebida em diferentes versões. Durante a programação haverá degustação gratuita das cachaças tradicionais e das famosas cachaças de jambu, bacuri, açaí e outras. A idade mínima para participação 18 anos.

Texto: Beatriz Pastana
Foto: Uchôa Silva

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Última modificação em Quarta, 06 Novembro 2019 18:49
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